O século XVIII foi palco de uma grande revolução. Não me refiro à Revolução Francesa mas a outra, silenciosa, cujos efeitos sobre a humanidade provavelmente se equiparam ou superam os da primeira. O mentor dessa revolução foi um alemão, filho de um pintor de porcelana. Chamava-se Samuel Hahnemann, médico formado em uma das melhores escolas da época. Conhecedor de muitas línguas e dotado de cultura eclética, dedicou-se durante muito tempo à tradução de obras médicas e de outras áreas, desde a produção de vinho até a mineralogia. Foi exclusivamente dessa profissão que viveu alguns anos, uma vez que decidira abandonar a prática médica por discordar dos métodos então utilizados como a sangria e a combinação de drogas violentas cujos efeitos, como seria de se esperar, eram sempre danosos.
Foi na tradução da Matéria Médica do escocês Cullen que Hahnemann teve a oportunidade de, pela primeira vez, colocar à comunidade científica o resultado de suas observações. Um dos capítulos dessa obra descrevia a ação terapêutica da China officinalis sobre a febre intermitente ou Malária, atribuindo esse efeito ao aparecimento, por estímulo do amargor e adstringência, de substâncias no estômago com essa propriedade. No rodapé desse capítulo, descreveu a auto-experimentação da China, revelando que, ao toma-la, apresentara os mesmos sintomas da febre e esta seria a verdadeira razão para a cura, isto é, se a China officinalis é capaz de produzir no indivíduo sadio os sintomas da febre intermitente, também pode curá-la. Na verdade, a base desse raciocínio vem mais ou menos do ano quatrocentos antes de Cristo, do “pai da Medicina”, Hipócrates. Portanto, experimentar em indivíduos sadios para conhecer as propriedades curativas das substâncias medicinais e utilizar o resultado desta experimentação em quadros semelhantes com a finalidade de curá-los são os dois primeiros pilares da Homeopatia. O próprio Hahnemann experimentou em si mesmo e em voluntários pouco mais de cem medicamentos.
Não estão errados os que acreditam que a Homeopatia seja uma “terapêutica natural”, uma vez que os medicamentos são retirados de todos os reinos da natureza. Enganam-se no entanto, os que a confundem com chás ou ervas, ainda que a maioria das substâncias medicinais homeopáticas sejam extraídas do reino vegetal, sendo também utilizados venenos como o Arsênico, por exemplo. Como conhecer a propriedade curativa desses venenos, uma vez que para tal é necessário experimentá-los em indivíduos sadios? Hahnemann também se fez esta pergunta e provavelmente, para solucioná-la, desenvolveu um método farmacotécnico de preparo baseado na diluição e sucussão. Com este método, observou que altas diluições, isto é, doses mínimas, eram capazes de despertar sintomas; este fato se constituiu no terceiro pilar da Homeopatia.
Finalmente, mas não menos importante, Hahnemann observou que para cada quadro sintomático deveria haver uma substância medicinal mais semelhante e, apenas uma capaz de resolve-lo. Este fato constitui o quarto pilar da Homeopatia, isto é, o remédio único.
Em resumo, a Homeopatia é uma terapêutica criada e sistematizada por Hahnemann que se utiliza de medicamentos retirados de todos os reinos da natureza, preparados através de uma técnica especial e bem definida, prescritos pela semelhança do resultado da experimentação em indivíduos sadios com o quadro que se pretende tratar, um remédio por vez.
No Brasil, a Homeopatia é considerada uma especialidade médica, reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, cujos especialistas são formados em cursos de pós-graduação de três anos e recebem seus certificados após aprovação em prova aplicada pela Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB), filiada à Associação Médica Brasileira (AMB).
Prof. Dr. Romeu Carillo Junior, presidente da ABRAH (Associação Brasileira de Reciclagem e Assistência em Homeopatia – www.abrah.org.br ) e Chefe da Unidade de Homeopatia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo.